Friday, June 19, 2009

MÚSICA NO METRÔ

Publicado no Guia da Semana

Foi no metrô de Nova Iorque. Ele tinha um teclado pendurado no pescoço, de modo que seus dedos alcançavam as teclas na altura da barriga. A idade, talvez uns 36 anos. Como soava bem aquele homem. Como soava bem aquela música. Chamou a atenção de todo mundo.

Um senhor, que dormia embrulhado em um lençol velho, abriu os olhos. Uma moça, que lia uma dessas revistas de fofocas, perdeu o interesse em saber quem vai casar com quem. Uma criança, que brincava com seu carrinho, passou a brincar de ouvir música. Toda a estação se fez platéia. Lá estava o homem, encantando sem sair dos trilhos da afinação.

Com muita suavidade, ele oferecia suas notas a quem as quisesse receber. Eu queria. E aquela música ia fazendo cada vez mais sentido para mim. É como se ele antecipasse os acordes e frases que o público gostaria de ouvir. O homem estava sempre dois segundos adiantado na minha expectativa.

Eu que não consigo me livrar do hábito de roer unhas à espera do próximo trem, naquele momento, passei a torcer em silêncio para que nenhuma luz surgisse na boca do túnel. That I can change the world / I would be the sunlight in your universe... Que som fazia aquele homem enquanto milhares de pés andavam apressados sob sua cabeça. Pés que talvez seguissem em direção ao Carnegie Hall em busca de um ingresso. Mal sabiam eles, que o palco era mais embaixo.

E como tudo que é único dura pouco, um barulho assassinava a melodia daquele artista subterrâneo. Desobedeci à minha vontade. Entrei no trem. Ainda deu para ver uma das mãos dele acariciando um dó sustenido. Mas meus ouvidos já estavam respirando outros ares. Uma voz cansada pedia distância das portas. O trem seguia na minha contramão.

Ainda guardo comigo a voz daquele homem e sua harmonia improvisada nascendo de um teclado simples, desses que a gente encontra até em loja de brinquedo. Músico bom entra em nossa cabeça sem ser convidado. Vez em quando me pego estalando os dedos diante das notas que visitam minha memória. Notas que ouvi uma vez naquela estação. E continuo ouvindo em silêncio até hoje.

Não dá para negar a eficiência do metrô de Nova Iorque. Mas bem que ele podia esperar o final da música para chegar à estação.

Tuesday, May 19, 2009

A RÁDIO QUE QUEREMOS OUVIR

Publicado no Guia da Semana

Alguma coisa acontece com a nossa música no rádio. E não é apenas quando cruzamos a Ipiranga com a Avenida São João. Seja qual for a esquina, a maioria das estações de FM denunciam a falta de qualidade no repertório.

Tem gente preferindo escutar A Hora do Brasil a ouvir a música do Brasil. (Tudo bem, exagerei, mas não vai demorar para isso acontecer). Salvo algumas exceções, música boa é raridade na programação. O que fazer? Desligue o rádio e ligue o computador.

No mundo virtual a coisa é bem diferente. Em meio a um sistema complexo de códigos binários, existe um eficiente sistema democrático. Você não é escravo da programação dos outros. Pelo contrário, torna-se proprietário da escolha do que deseja ouvir.

E se fuçar, acha coisa boa.

Tem a Débora Gurgel tocando Só Danço Samba com o Nelson Ayres. Sabe quando você vai ouvir isso no rádio? Puxe uma cadeira. Tem a Silvia Goes despejando musicalidade em O Filho Que Quero Ter, do Toquinho e Vinícius. Por falar em Vinícius, tem o Calderoni, jovem compositor que merece um lugar nos seus ouvidos (nas rádios também, mas fazer o quê?) Tem outro Vinícius, chamado Dorim, soprando virtuosidade no sax, Chico Pinheiro anunciando uma nova fase da MPB, Ulisses Rocha com seu violão preciso, Thiago Espírito Santo e por aí vai.

A Internet devolveu o "sorriso no rosto de nossos ouvidos". E você não precisa saber o nome de todas as feras para capturá-las. O MySpace de um deles já é suficiente para chegar até os outros. Músico bom é tão raro que acaba virando uma panelinha. E que som faz essa panela.

Longe do autor aqui difamar um veículo tão importante como o rádio. Muito menos generalizar a falta de qualidade. Existem sim, algumas estações se esforçando para colocar música boa no ar. Mas são poucas. E a gente fica com uma sede imensa de som.

Quando vamos ouvir Notícias da Praça Central em alguma estação da FM? Ou o Hermeto tocando chaleira enquanto eu estiver no trânsito? A que horas o Morelenbaum vai dar uma entrevista sobre as suas influências musicais? Quando alguém vai dizer que o compositor de Duas Contas foi o Garoto e que ele fazia muito americano ir ao teatro só para ver seus arranjos nos shows da Carmen Miranda? E Francis Hime, por onde ele anda cantando Embarcações?

Vamos lá, gente. Quero ver todo mundo cruzar os dedos, torcendo para as rádios mostrarem que "som bom" é uma rima possível.

Sunday, April 05, 2009

UM SONHO CHAMADO JOBIM

Publicado no Guia da Semana

O show a que nunca fui aconteceu em alguma esquina da minha memória, naquela região das coisas que não existiram. A mente faz força para dar vida ao fato. E a gente acaba se lembrando da plateia ansiosa, do som das latinhas de refrigerantes, do garçom com a lanterna discreta trazendo uma porção de pastel.

Mas não havia tempo para uma segunda mordida. Das cortinas laterais do teatro imaginário, surge um senhor de terno branco e chapéu de palha. Pai das teclas pretas e brancas. Com vocês, Antônio Carlos Jobim!

Num gesto eterno, ele assume o piano. O primeiro acorde soa forte, deixando até quem não pediu aperitivo de boca aberta. "Eu sei que vou te amar, por toda minha vida eu vou te amar". A moça da mesa ao lado chora. Um garçom oferece lenço, mas ela se irrita num balé de mãos tentando abrir caminho para os olhos. As lágrimas param de cair. Chega de saudade.

A plateia aplaude de pé. Algumas palmas perdidas coincidem com a introdução da próxima música. Tom segue declamando ao piano. Tristeza tem fim. Ela acaba ali, na harmonia tão carioca do maestro brasileiro.

Agora me pego, imaginando o mar, o Corcovado e a curva do avião em busca da pista. Por um instante, uma certeza: o Rio de Janeiro estava ali, dentro do meu teatro.

O maestro continua acariciando seu piano. Faz chover na roseira, faz imortal uma garota na praia, faz os desafinados da platéia cantarem com o coração. Até que o show termina nos gritos insistentes de "bis". Jobim atende aos pedidos. Imortaliza novamente a famosa garota. E desaparece atrás das cortinas do palco da minha memória. As luzes se acendem, agora posso ver o rosto dos garçons. A moça que estava ao meu lado é um pouco mais gorda do que imaginei. No escuro, tudo melhora.

É o fim do meu encontro com o mestre das melodias cheias de Mata Atlântica. O fim de um salto preciso do plano da realidade ao plano dos sonhos. Fim do show a que nunca fui. Como é teimosa a nossa imaginação.

Monday, August 18, 2008

O GAROTO DOS BRAÇOS GIGANTES


Quando ele nasceu, o médico deu a notícia: - tirando um pequeno problema, tá tudo em ordem.

O menino nasceu com dois braços enormes. Totalmente desproporcionais para um recém-nascido. No berçário, ele ficava em cima de uma mesa. Seus braços não cabiam em nenhum berço.

Quando entrou na escola, já foi logo ganhando apelido. Era homem-borracha para lá, homem-borracha para cá.

Algo de muito errado havia com aqueles braços.

E o garoto começou a estudar piano. Mas no terceiro mês, manifestou uma vontade imensa de estudar flauta transversal. Depois, quis mudar para o oboé. O que não durou muito. Dizia que tinha nascido para tocar tuba. Usou a mesma frase quando foi estudar acordeon.

Assistindo a uma partida de tênis na TV, o garoto não pensou duas vezes. Pediu à sua mãe que o matriculasse numa academia. E, de Natal, ganhou uma Pró Staff 6.0 da Wilson.

No quinto mês de aula, o garoto desistiu da carreira de tenista. Sorte que do outro lado da rua tinha uma escolinha de futebol.

Pediu um par de chuteiras de aniversário.

A vida do garoto de braços gigantes não era nada fácil. As pessoas davam risada dele na rua. Um dia, o garoto percebeu que não precisava abaixar para amarrar o tênis. Ficou muito triste.

Quando completou dezoito anos, não ganhou um carro. Seus braços só cabiam dentro de um caminhão. Acabou ganhando uma Caloi.

No dia de fazer inscrição para o vestibular, o garoto não sabia qual curso escolher. Optou por História. Mas, em poucos meses, pediu transferência para Design. A partir de então, não parou de mudar.

Mudou para Arquitetura. Para Artes Plásticas. Medicina. Direito. Música. Oceanografia. Publicidade. Cinema. E até para Engenharia de Pesca.

O garoto não se cansava de mudar. Queria fazer tudo. Aprender tudo. Jogar tudo. Tocar todos os instrumentos.

O garoto era a própria mudança.

Preocupada com a situação, a mãe do garoto resolveu levá-lo ao clínico geral. Na sala de espera, ele brincava de virar as páginas das revistas dos outros pacientes que estavam a metros de distância. Só para perturbar.

Chegou a vez dele. A mãe contou tudo ao médico. Explicou que seu filho sempre quis fazer de tudo. Praticar todos os esportes. Tocar todos os instrumentos.

E o médico deu o diagnóstico. O garoto dos braços gigantes nasceu com uma doença muito rara.

Nasceu com a Síndrome de Querer Abraçar o Mundo.

Monday, May 12, 2008

DIÁLOGO COM O AMOR


- Chega de sentir isso, não quero mais brincar. Será que a gente pode jogar WAR ou truco?

(Risadas)

- Você não escolhe nada aqui. Limite-se a sentir.

- A sofrer, você quer dizer.

- Isso é contigo. E agora silêncio que eu preciso descansar.

- Ah, claro. Você aí descansando, enquanto eu assisto à Sessão Coruja com a minha insônia.

- É assim que funciona.

- Vou acabar com você.

- Impossível.

- Isso não é justo.

- Paciência.

- Fácil falar. Não é você que tá sendo desprezado por alguém.

- Entende uma coisa. Quanto mais você ficar na sua, maiores serão suas chances. Tente manter a calma.

- Calma? Acho que você não tem idéia do que causa nas pessoas.

- Estou apenas fazendo o meu trabalho. Não quero ser um sentimento desempregado.

- Que se dane seu emprego. Eu quero que você morra.

- Você não conseguiria viver sem mim. Ninguém consegue.

- Falou o indispensável.

- Sou mesmo. Pode perguntar pra qualquer casal de namorados.

- Cansei. Dá para sair da minha casa?

- Não. Mas... você tá sofrendo mesmo, né?

- Muito.

- Tudo bem. Vou dar uma ajuda. Ela vai ligar em cinco minutos.

(Som de telefone)

- Alô? Oi, que bom ouvir sua voz. Alô? Alô? Fala comigo. Alô? Desligou. Você disse que ela ia me ligar.

- E ligou. Só não mencionei nada sobre ela falar com você. Adoro essa parte.

- Agora chega. Já que você não quer sair por bem, vai sair por mal.

Então começou a jogar todos os seus livros de poesia no lixo da casa. E na lixeira do computador, jogou e-mails românticos. Também deletou mensagens do Orkut, rasgou cartas, quebrou vários CDs, arremessou o violão na parede e queimou uma camiseta de Nova Iorque que tinha um coração vermelho bem grande no meio.

- Pronto. Quem é que manda aqui, hein? Vai tarde, meu amigo.

E pegou no sono.

Mal sabia ele que em duas semanas tudo começaria de novo. Culpa da camiseta queimada. Esqueceu de jogar os restos no lixo. Aprendeu a lição.

O amor tem um quê de Fênix: renasce das cinzas.

Wednesday, April 30, 2008

O ARTISTA


O artista precisa sair. Fugir. Ir lá naquela ponta bem distante que ninguém sabe qual é porque não dá para ver. O artista tem que correr. E olhar para trás quando ouvir um assobio. Ou um grito desesperado. O artista tem que mudar de país de vez em quando. Colocar uma mochila nas costas e virar verbo. O artista tem que insistir, trocar de caminho. Ser indisciplinadamente disciplinado. O artista deve andar de trem. Deve conversar com o passageiro do lado, não importa em qual idioma. O artista deve puxar assunto usando gestos, se for preciso. O artista deve arriscar. Apostar naquilo em que acredita. E naquilo em que não acredita também. Deve migrar, pular, tropeçar, ousar, renovar. O artista tem que fazer de tudo para o coração bater assim meio descompasado. Aquele descompasso de paixão, não de doença cardíaca. O artista tem que fazer careta quando presenciar uma cena engraçada. Tem que chorar quando vir alguém dormindo na rua. E se não chorar, então não é artista. Tem que dar esmola não só aos aleijados. O artista precisa sair. Sair de casa, sair do escritório, sair do carro, sair de dentro de si, sair por aí levando qualquer objeto. O artista tem que andar sempre com um caderno, uma caneta, uma câmera fotográfica, um dicionário de sinônimos e um chapéu de palha. O artista precisa partir, participar, particularizar. O artista tem que sofrer para ser. E sofrer novamente, para ser outra pessoa quando se passarem dez minutos. O artista deve ser vários. E precisa disso. Precisa acordar como músico, almoçar feito poeta e dormir na pele de um cronista. O artista tem que investigar as rimas. Investigar a vida. A dele e a dos outros também. O artista precisa se despedir constantemente do medo. Andar de elevador vinte vezes por dia, de avião uma vez por mês, de teleférico duas vezes por ano. O artista precisa olhar para janela de quinze em quinze minutos. Todo artista almeja a janela. Almeja o que há lá fora. Almeja a promessa da janela. Sente vontade de abraçar o céu, engolir as nuvens, retocar a lua. Todo artista precisa sair. E, saindo, ele vai entrando em lugares diferentes para ser artista novamente. O verdadeiro artista nunca tem um endereço fixo dentro dele.

Tuesday, April 15, 2008